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  • Leonardo

Podcast Ser Consciente: 2º - Não julgueis

O presente texto é uma transcrição do áudio do 2º Podcast - Ser Consciente, de tema Não julgueis, postado no dia 15/07. Caso queira conferir o podcast, você pode encontrá-lo aqui no site da SER, em https://www.ser.org.br/podcast-1 , ou no endereço https://www.spreaker.com/show/ser-consciente


Apresentação


Sejam bem-vindos ao Podcast - “Ser Consciente”: nosso encontro mensal para asserenar a mente, os sentimentos, e refletir um pouco sobre uma passagem do Evangelho Segundo o Espiritismo, aproveitando para entrar em sintonia com nosso Espírito Protetor, com os bondosos Amigos Espirituais e com a nossa essência espiritual, desfrutando a paz que decorre desse momento.

Procure então, se possível, um ambiente calmo e reservado. Busque se sentar confortavelmente em um sofá ou uma cadeira, ou, se preferir, você pode se deitar na sua cama. Agora, por três vezes, inspire o ar profundamente, expirando-o pela sua boca. Conforme realiza essas respirações, vá, lentamente, fechando os seus olhos até que na última respiração eles estejam completamente fechados. Agora, com a mente um pouco mais asserenada, vamos orar...


Oração


Querido Pai, agradecemos por todas as dádivas que nos deste, pela oportunidade deste momento de reflexão e pelas bençãos divinas que recebemos. Ao nosso amado Mestre, rogamos que esteja conosco nestes momentos nos auxiliando, com suas inspirações e intuições, a compreender e internalizar o conteúdo das meditações de hoje. Ampara e ilumina a todos que se encontram em necessidade, em luta, em sofrimento e permanece conosco por hoje e sempre. Graças a Deus.

Tema: Não julgueis


Nosso tema de hoje, Não julgueis, provém do item 11 do capítulo X d’ O Evangelho Segundo o Espiritismo, que é intitulado Bem-aventurados os que são misericordiosos. O trecho escolhido se encontra no Evangelho de Matheus, capítulo 7, versículos 1 e 2:

"Não julgueis, a fim de não serdes julgados; - porquanto sereis julgados conforme houverdes julgado os outros; empregar-se-á convosco a mesma medida de que vos tenhais servido para com os outros."

Como as considerações que gostaríamos de tecer sobre essa passagem excederiam bastante o nosso tempo aqui, avisamos, de antemão, que vamos refletir sobre esses versículos não somente neste podcast, mas também, pelo menos, no próximo.

Dito isto, vamos contextualizar esses dois primeiros versículos do capítulo 7 do evangelho de Matheus. Trata-se, novamente, de um trecho do Sermão do Monte, o primeiro proferido por Jesus a uma grande multidão, possuindo uma beleza inigualável e que, como foi dito no nosso 1º podcast, contém toda a essência do cristianismo.

E, dentre as várias recomendações de máxima importância que o Mestre propôs aos seus discípulos, está a da passagem mencionada. Podemos dividir essa fala em duas partes: de um lado, a própria recomendação, isto é, “não julgueis para não serdes julgados” e, de outro, primeiramente, o porquê dessa recomendação e, em segundo lugar, a explicação desse porquê. Pois bem, a razão dessa proposta é que, ao julgarmos as pessoas, nós seremos julgados tal como julgamos os outros. E para explicar isso, Jesus diz que será empregada conosco a mesma medida que empregamos com os demais. Quer dizer, se, por exemplo, eu sou incompreensivo com os erros alheios, o que será que posso esperar das pessoas quando todos perceberem que eu errei? Compreensão? Pelo contrário; receberei a mesma medida que utilizei com os demais: a incompreensão. Trata-se da lei da reciprocidade: é feito comigo aquilo que fiz com os demais; ou seja, é a lei de Talião, “olho por olho, dente por dente”.

Contudo, como lembrou exemplarmente Gandhi:

"Olho por olho, e o mundo acabará cego."

Caso não fosse possível sair dessa lógica da reciprocidade, não haveria lugar no mundo para a compreensão, para a compaixão, para o amor... É por isso que Jesus anunciou a importância da indulgência, dado que, como lembra o texto do item 13 do capítulo X d' O Evangelho Segundo o Espiritismo, que estamos estudando aqui, a indulgência é algo fundamental para nós, porque

"...não há ninguém que não necessite, para si próprio, de indulgência" (pag. 191).

Mais à frente, no item 16 do mesmo capítulo, a indulgência é definida, nas palavras do Espírito José, que assina a mensagem, como um sentimento doce e fraternal do qual todos necessitam, mas do qual pouquíssimos se utilizam. E o Espírito José continua dizendo que

"A indulgência não vê os defeitos de outrem, ou se os vê, evita falar deles, divulgá-los."

E, um pouco depois, ele diz ainda:

"A indulgência jamais se ocupa com os maus atos de outrem, a menos que seja para prestar um serviço; mas, mesmo neste caso, tem o cuidado de os atenuar tanto quanto possível."

Vemos então que indulgência é silenciar frente ao erro alheio a não ser que nossas palavras cumpram certo propósito, a saber, o da utilidade; caso o que eu venha a dizer não seja útil, então nada cabe dizer e, mesmo no caso que minhas palavras possam ser proveitosas a quem me escuta é preciso ter o máximo cuidado para utilizar de discrição e também de respeito aos sentimentos do próximo.

Certo. Compreendemos a princípio, com essa definição preliminar, o que é a indulgência e qual é a sua importância. Mas, agora, vamos pensar na nossa realidade cotidiana: será que ela está presente no nosso dia a dia? Estamos sendo indulgentes?

Não é preciso pensar muito para perceber o quanto falta de indulgência no mundo: nas relações familiares, com amigos e conhecidos, no âmbito profissional, com desconhecidos e, quem sabe, em particular, conosco mesmo! A verdade é que a grande maioria das pessoas (e, possivelmente, nós mesmos estamos inclusos aqui) está condicionada de uma forma tão forte a julgar os outros que dificilmente são capazes de, quando se deparam com alguma situação que não gostam, não sentir uma inquietação tremenda e, muitas vezes, uma vontade quase incontrolável de falar algo, de dar sua opinião sobre o que o outro fez, se ele está ‘certo’ ou ‘errado’, se é uma pessoa ‘boa’ ou ‘má’ e ‘merece’ ou não nossa aprovação.

Essa grande dificuldade de ser indulgente e não sair julgando e falando daquele que nos desagrada, seja isso em público ou em particular, acreditamos, se deve ao fato de que a grande maioria de nós não é capaz de apenas observar sem avaliar. Certa vez, o filósofo indiano Krishnamurti disse que

“A forma mais elevada da inteligência humana é a capacidade de observar sem julgar.”

Mas o que é exatamente isso? É a capacidade de apenas analisar e verificar o que se passa em determinada situação, sem confundir essa observação com as minhas avaliações, isto é, confundir o que de fato ocorreu com o que eu acho sobre isso, se tal coisa é boa ou não, está certa ou não...

Para desenvolver essa ideia, vamos nos servir da Comunicação Não-Violenta, criada por Marshall Rosenberg. Marshall Rosenberg é um psicólogo norte-americano que ficou conhecido tanto pela criação, quanto pelo ensino da Comunicação Não Violenta ou da CNV. Em muitas oportunidades ele se utilizou dela na mediação de conflitos familiares, pedagógicos, sociais e até em conflitos étnicos e em guerras. E desde o início de sua vida ele esteve preocupado em encontrar uma forma de os seres humanos compreenderem uns aos outros sem a necessidade de apelar à violência. E sua primeira experiência com a violência surgiu bem cedo. Quando tinha cerca de 9 anos, em 1943, a família dele se mudou para Detroit. Logo após se mudarem, surgiu um conflito racial na cidade depois de um incidente em um parque público. Mais de quarenta pessoas foram mortas durante esse episódio e, como sua família residia em um bairro que ficava no centro do conflito, eles passaram três dias trancados em casa. E, após o fim dos tumultos que tomaram conta da cidade, começaram as aulas. Novo na turma, os colegas da classe dele descobriram durante a chamada que seu sobrenome era Rosenberg e que ele tinha descendência judia. Era o ano de 1943, em plena Segunda Guerra Mundial e, após a aula, infelizmente, dois colegas estavam esperando por ele, o jogaram no chão e começaram a bater nele. Pode-se pensar que alguém que tenha passado por essas experiências ainda tão jovem tenha ficado traumatizado, cheio de ódio daqueles meninos e daquelas pessoas que estavam envolvidas no conflito racial que forçou tantas famílias a se trancarem em suas casas, temendo por suas vidas. Pois bem, com Marshall Rosenberg o que se sucedeu foi exatamente o contrário: segundo ele mesmo, ele passou a se perguntar

"O que nos permite (...) permanecer sintonizados com nossa natureza compassiva até nas piores circunstâncias?"

Foi, portanto, com um propósito de buscar desenvolver a compaixão de tal forma que seria possível a alguém permanecer compassivo até em situações violentas, que Marshall Rosenberg iniciou todo um processo que culminou na criação da Comunicação Não Violenta. Para quem queira saber mais sobre essa forma de comunicação fundamental para todo o tipo de relação humana, indicamos o livro de Marshall, Comunicação Não-Violenta. É uma leitura que vale muito a pena.

Dito isso, vamos retomar de onde paramos: o que é, exatamente, a capacidade de observar sem avaliar e como isto é possível? Bem, o primeiro passo da Comunicação Não Violenta é justamente ser capaz de separar observação de avaliação, ou seja, ser capaz de observar as coisas claramente, sem adicionar qualquer avaliação.

De acordo com Marshall Rosenberg, toda vez que nos expressamos a alguém aliando nossa observação com uma avaliação, diminuímos a probabilidade de que os outros escutem a mensagem que queremos transmitir, pois será provável que ela pareça uma crítica e, assim, haja resistência por parte de quem nos escuta. Por exemplo, se estou com raiva porque gostaria que meu amigo me escutasse, mas, no momento, ele não está prestando atenção ao que estou lhe falando, terei muito menos chance de ser compreendido se lhe disser: “Você nunca escuta o que eu falo!” ou “Você é muito egoísta! Você não se importa comigo! Só pensa em você!”. Aqui, claramente, são utilizadas avaliações para se expressar em vez de se ater a uma observação da situação. Utilizar advérbios absolutos como “nunca” ou “sempre” é um exemplo clássico de uma avaliação. Chamar alguém de “egoísta” também não ajudará, pois há uma grande probabilidade de a pessoa ficar na defensiva ao escutar isso, já que essa é uma linguagem violenta que classifica as pessoas em duas categorias, em ‘boas’ e ‘más’, e coloca um dos envolvidos no papel de juiz e o outro no papel de condenado. Com isso, contrariamente àquilo que se pretendia, isto é, ser escutado, a pessoa provavelmente passará apenas a tentar se defender desse julgamento ou revidá-lo com outros julgamentos, sem escutar nada do que estava sendo dito anteriormente.

O fato é que jamais poderemos ter certeza se a pessoa está ou não nos escutando até perguntarmos a ela: “Você escutou o que eu disse?”. Muitas vezes, alguém pode parecer disperso ou desinteressado no que estamos dizendo e depois nos surpreendemos ao saber que essa pessoa escutou o que dissemos. Esse tipo de situação já ocorreu muitas vezes comigo em sala de aula: alguns alunos que eu tinha certeza que não estavam prestando atenção em nada do que eu estava falando sobre algum conteúdo, souberam responder uma pergunta que fiz ou depois vieram no final da aula fazer um comentário sobre o que eu disse, o que demonstra que estavam, sim, prestando atenção. Na verdade, é preciso reconhecer que há uma grande diferença entre o juízo que eu faço do mundo, baseado em minhas avaliações das situações, e o que realmente está ocorrendo. É preciso então separar fato de julgamento.

Nesse sentido, estão longe de serem raros os momentos em que nos enganamos sobre os juízos que fazemos das situações ou das pessoas. Muitas vezes passamos por situações em que temos muito receio de dizer algo que consideramos delicado a alguém, como quando, por exemplo, queremos falar a algum parente que não nos sentimos contentes com algo que ele tenha feito. Podemos pensar: “Ah, não! Fulana ou Ciclano não vai me entender. É uma pessoa muito explosiva! Não tem cabeça para nada.” Então, com base nesse julgamento, passamos por muitas situações que nos aborrecem, mas que não fazemos nada para mudar, nos violentando e contribuindo de maneira decisiva à nossa própria infelicidade. Como eu poderia saber, de antemão, que esse parente não vai me entender? Lógico que somos capazes de prever certos cenários baseados em experiências anteriores com as pessoas, contudo, mesmo que a outra pessoa não goste de meu comentário, fique irritada e comece a falar o que for para nós, ainda assim, graças a Deus, haverá remédio à situação. Mas para explicar qual seria o remédio, aqui seria preciso explicar, no geral, como funciona a Comunicação Não Violenta. Vamos deixar para, quem sabe, abordar outros pontos da CNV no futuro, porém quem tiver interesse de ter uma noção geral de como ela funciona, pode tanto ver algumas palestras do Marshall Rosenberg sobre ela na internet, quanto ler o livro que mencionamos aqui.

Por isso, vale a pena a reflexão: será que tenho observado ou avaliado o que se passa ao meu redor? Será que estou confundindo a análise do que ocorre com meus julgamentos? Será que toda dor que encontramos em tantos relacionamentos frustrados que a gente possa ter não se deve, em muitos casos, justamente, a julgamentos que fizemos de outras pessoas, seja do que nós achamos que elas nos tenham feito, ou do que pensamos que elas nos disseram, visto que é possível pensar ter escutado alguém nos ofender quando, na verdade, nada nesse sentido foi dito? Talvez possamos encontrar aqui uma excelente ferramenta para acabar com tanto sofrimento que estejamos passando. E, mais ainda: aprender a ser mais indulgentes com os outros e conosco mesmo. Quantas não são as vezes que pensamos, por exemplo, “Como fui burro?” ou “Eu não sirvo para nada!”? Se aprendermos a separar observação de avaliação, não mais cometeremos essa violência com nós mesmos. Se existe algo que não fiz de maneira apropriada, não há razão para que eu me chame de “burro” e condene por tudo o que faço! Desse modo, vamos encontrando uma maneira mais amável de lidar conosco, desenvolvendo a indulgência, primeiro, com nós mesmos, começando a nos nutrir de um autoamor capaz de regenerar qualquer ferida da alma. E, não tenha dúvida, quando alcançarmos isso será apenas natural que sejamos indulgentes com todos os demais que nos cercam, praticando então a caridade tal como ela é proposta na mensagem do item 18 do capítulo X d' O Evangelho Segundo o Espiritismo, mensagem com a qual encerramos nosso podcast de hoje. E a mensagem diz assim:

"O verdadeiro caráter da caridade é a modéstia e a humildade, que consistem em ver cada um apenas superficialmente os defeitos de outrem e esforçar-se por fazer que prevaleça o que há nele de bom e virtuoso, porquanto, embora o coração humano seja um abismo de corrupção, sempre há, nalgumas de suas dobras mais ocultas, o gérmen de bons sentimentos, centelha vivaz da essência espiritual" (Dufêtre, bispo de Nevers, Bordéus).
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